sábado, 20 de outubro de 2012

CURA POR MEIO DO APRENDIZADO


Cidades/DIÁRIO DO NATAL
Edição de domingo, 6 de fevereiro de 2011 
Cura por meio do aprendizado
Projeto Classe Hospitalar leva educação para o pacientes do Varela Santiago, recuperando sua autoestima
Alex Costa
alexcosta.rn@dabr.com.br 
Especial para o Diário de Natal


"Gosto muito de ficar com o professor Marcelo. Aqui tem fantoches, brincadeiras, aprendemos coisas novas. Bem melhor do que ficar deitado o dia inteiro", afirma Diogo Dantas, 7, enquanto participava de atividades lúdicas com outros colegas. A sala de aula é igual a qualquer outro espaço dos colégios potiguares: livros, jogos, computadores. O diferencial são os alunos e o lugar onde a sala está instalada: no Hospital Infantil Varela Santiago. Diogo é uma criança que luta há dois meses contra a leucemia e é um dos beneficiados do Projeto Classe Hospitalar. A iniciativa do hospital filantrópico, em parceria com a Prefeitura do Natal e o Governo do Estado, é um programa pedagógico que acompanha e ensina alunos em tratamento hospitalar.


Marcelo Gomes é voluntário há dois anos e há dois meses trabalha como estagiário de pedagogia: aprendizado diário Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
Pedagoga do Varela Santiago, Cristiane Nery Rocha explica que o projeto, que funciona do ensino infantil ao ensino médio, abre caminhos para restaurar os sonhos dos beneficiados. "De acordo com especialistas em educação especial, projetos como este produzem uma influência totalmente positiva, onde todas as partes são beneficiadas, aumentando a autoestima e a vontade de viver dos pacientes, e trazendo aos pais e familiares a esperança de que tudo será encaminhado da melhor forma", relata Cristiane. "O programa visa o atendimento escolar especializado aos alunos/pacientes, promovendo a continuidade de seu processo de escolarização em virtude do tratamento de saúde", completa.

O diretor do Hospital Varela Santiago, Paulo Xavier, foi o que mais apostou no projeto que cada dia mais ganha força. Mensalmente, o Varela Santiago recebe 480 casos oncológicos e hematológicos, tornando o trabalho ainda mais vital.

Efeitos positivos

O Classe Hospitalar já vem surtindo efeitos positivos nas crianças. Como prova, Maria Edinete Lima, mãe do Diogo, confessa: "A leucemia do meu filho mudou toda a minha vida, como também a da minha família. Estamos todos muito abalados. Porém, esse projeto faz com que as crianças esqueçam até mesmo a dor que estão sentindo e consigam apagar o presente e pensar em um futuro melhor".

Maria sonha que um dia este tipo de ação possa ser desenvolvido em todos os hospitais, pois acredita que seja uma excelente ferramenta de cura. Diogo recebeu alta na última sexta-feira e encontrava-se em meio às atividades lúdicas oferecidas pelo Classe Hospitalar. "Ele mudou bastante, se tornou mais agressivo após a doença, contudo a atenção que ele recebe na sala de aula tem provocado mudanças positivas no seu comportamento. A tendência é melhorar ainda mais", relata a mãe. 
Estímulo à melhoria


Cristiane Nery e sua equipe organizam as aulas semanalmente e produzem relatórios diários sobre o desenvolvimento dos alunos. "É um resgate. Os pais dos pacientes só querem ver os seus filhos bem, e com este programa há um estímulo à melhora dos alunos. E quando os alunos melhoram, os pais também melhoram e se fortalecem", finaliza.

Amanhã serão retomados os trabalhos do Classe Hospitalar num espaço dividido para comportar todos os níveis de escolaridade em horários diferentes, para que todos sejam acompanhados pedagogicamente. Na sala de aula, muitos materiais: doações feitas pela Prefeitura do Natal, Governo do Estado, voluntários e pelo próprio hospital, para que todo o trabalho seja desenvolvido de forma excelente.

Marcelo Gomes é voluntário há dois anos, e há dois meses trabalha como estagiário de Pedagogia no hospital. "Do tempo que estou aqui, acompanhei 11 óbitos. No início foi chocante para mim. Mas isso me fez ter mais força para poder ajudar outras crianças, de modo que encaro com mais naturalidade, pois eles precisam de nossa ajuda", conta o estagiário. Johnny Yuri, 17, é um dos vitoriosos que conseguiu conciliar os estudos com o tratamento e hoje busca uma vaga no Instituto Tecnológico Federal do RN (IFRN).

"O mais importante é que haja uma comunicação com a escola do paciente. Os itens desenvolvidos na escola são passados para os internados, de modo que o aprendizado dos pacientes não seja interrompido com o tratamento", disse a pedagoga Cristiane Nery.

A psicóloga Rafaela Maria explica que "o trabalho é todo feito de forma interdisciplinar, desde o acompanhamento dos pais, das famílias até o desenvolvimento de projetos de humanização. Todos os setores do hospital estão conectados e envolvidos no trabalho".

Saiba mais

O Projeto Classe Hospitalar começou a ser desenvolvido pela pedagoga Simone Rocha, desde 1º de Junho de 2009. Junto com a equipe do hospital, Simone conseguiu recursos suficientes para concretizar o projeto, tido como inovador e desafiador. Em agosto 2010, a Prefeitura do natal assinou um convênio com o Varela Santiago, inserindo três professoras da rede municipal no projeto. Em dezembro, o mesmo foi feito com o Governo do Estado, e dois novos professores irão ser disponibilizados. O objetivo é criar uma escola efetiva que possa estar auxiliando os alunos/pacientes que não possam continuar os estudos normalmente. Hospitais como o Maria Alice e a Fundação Hospitalar Carlindo Dantas (Hospital do Seridó) em Caicó-RN são outros beneficiados com o projeto. 

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