quinta-feira, 9 de abril de 2015

RESENHA : A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E DA PEDAGOGIA - GERAL E DO BRASIL



Aranha, Maria Lúcia de Arruda – História da educação e da pedagogia: geral e do Brasil.3 ed.rev e ampl. São Paulo: Moderna. 2006.



Por Christianne Néry

Antes de iniciarmos as discussões acerca dos capítulos é de fundamental importância ressaltar alguns aspectos pontuados pela autora na Apresentação do livro proposto.
Aranha expõe o fato de sermos históricos devido às nossas ações e pensamentos mudarem com o tempo ao enfrentarmos problemas. Produzimos a  nossa cultura. O passado não está morto porque nele se fundamentam as raízes do presente.  Com a história da educação que interpretamos as maneiras dos povos transmitirem sua cultura, as suas instituições escolares e as teorias que as orientam, mas inúmeros foram os modos de compreender o ser humano no seu tempo e na sua história.
Aranha relata duas funções da história da educação: docência e pesquisa.
A docência refere-se À história da educação como disciplina de um curso em que pessoas envolvidas com o projeto de educar novas gerações, tenham sempre uma intencionalidade atenta às mudanças necessárias.
A pesquisa é a história da educação como atividade científica de busca e interpretação das fontes, para melhor conhecer nosso passado e presente. Aqui abordaremos nesses três capítulos a história da educação como docência.
No capítulo 1 para a autora, é muito difícil caracterizarmos as comunidades tribais, pois há muitas diferenças entre essas sociedades e não podemos avaliá-las segundo a nossa cultura. O ideal seria considerá-las como povos diferentes de nós e não inferiores.
As sociedades tribais são míticas e de tradição oral. A natureza está carregada de deuses e o sobrenatural penetra em todas as dependências da realidade vivida. As atividades das mulhres adquirem caráter social não só doméstico e o chefe guerreiro ou o feiticeiro xamã possuem prestígio para exercer obediência. O chefe é porta voz da comunidade. Assim o social não se separa do político. Os adultos respeitam o ritmo das crianças. Essa educação difusa, em que todos participam, desenvolve aguda percepção do mundo e aperfeiçoa habilidades. Elas aprendem para a vida e por meio dela sem que ninguém esteja destinado para ensinar. Essa formação é integral e universal em que todos têm acesso ao saber e ao fazer.
Com o surgimento da escrita devido algumas necessidades administrativas dos negócios mudam-se o modo de agir e pensar dessas comunidades. Surgem as cidades, novas técnicas, alterando as relações humanas e a sociabilidade. Cria-se a hierarquia, privilégios de classes, formas de servidão e escravismo no trabalho. O Estado administra as terras, e a mulher passa apenas a procriar e exercer tarefas do lar. O saber antes universal torna-se patrimônio e privilégio da classe dominante. Surge a necessidade da escola com a função de exclusão.
No capítulo 2 Aranha retrata inúmeros povos que constituíram a chamada Antiguidade Oriental. Algumas civilizações Fluviais ou sociedades hidráulicas que fazem uso da terra fértil como Mesopotâmia, Egito, índia e a China. Estas possuíam culturas diferentes, mas impuseram governos de caráter teocrático com poderes absolutos ao rei ou imperador se sustentando na crença e na origem divina.
Somente no segundo milênio surge a difusão da escrita pelos Fenícios (escrita fonética alfabética) deixando esta de ser monopólio de uma minoria e perdendo aos poucos o caráter sagrado.
Quando as sociedades se tornam mais complexas as mudanças exigem uma revolução na educação que deixa de ser igualitária e passa a ser privilégio para alguns. Não havia reflexão pedagógica e as orientações permeavam os livros sagrados daí seu caráter de educação Tradicional, sendo imposta e não discutida.
Aranha expõe que na civilização Egípcia apesar de forte teor religioso da cultura o Estado era centralizador e teocrático, sendo a transmissão do saber restrita a poucos. As escolas funcionavam em templos e casas e os mestres eram considerados e os alunos levados à obediência. O falar bem não era inicialmente o intuito dessa educação e sim voltada para a formação de escribas, peritos, e para a formação de artesãos e treinamento dos guerreiros em nível inferior.
Os mesopotâmios tinham conhecimentos diversos, inventaram a escrita cuneiforme, bibliotecas, calendários, astronomia e medicina sendo esses saberes impregnados de misticismo com uma cultura poderosa da classe sacerdotal depositária do saber e da educação.
Na índia existiam duas tradições que permanece até os dias atuais: as hindus (Bramanismo) e o Budismo com bastante discriminação e divisão de classes. Os Brâmanes eram os considerados os mais importantes sendo privilegiados na educação e dependiam da iniciativa privada com estudos de função religiosa e moral. Os Budistas tinham a educação com caráter espiritual, valorizando a relação entre mestre e discípulos.
Na China a educação reproduzia caráter conservador, voltados para a transmissão do saber contidos nos livros clássicos. Também elitista onde os letrados eram mandarins responsáveis pela máquina burocrática do Estado.
Os hebreus valorizavam seus antepassados. As sinagogas serviam de local para a instrução religiosa transmitida pelo estudo da bíblia. Houve interesse pela educação para o trabalho.
No capítulo 3, a autora dá destaque à civilização Grega por ter sido a que mais marcou na civilização ocidental até os dias atuais.  A educação voltava-se para o desenvolvimento e construção do consciente centrada na formação integral (corpo e espírito) com preparo militar ou esportiva e também elitizada. Havia dois modelos de educação nas cidades de Esparta e Atenas.
Em Esparta era orientada para a formação militar. As mulheres tinham que gerar filhos robustos e abandonar deficientes e frágeis. Aos 7 anos recebiam do Estado uma educação pública e obrigatória centrada nas artes e aos 12 focavam-se no treino militar. Valorizava-se a obediência e a educação moral.
Em Atenas aos 7 a criança era separada da autoridade  materna e conduzida por um escravo(pedagogo) pára o ensino da leitura e escrita, educação física e musica. O mestre era humilde, mal pago, sem prestígio. Método tradicional, sem atenção a formação profissional.
Com o surgimento de educação geral amplia-se o conhecimento (período helenístico), o saber erudito, as questões metafísicas e políticas eram substituídas por temas éticos. Os novos mestres eram os Sofistas, sábios itinerantes que procediam as discussões sobre moral e política sendo criadores da educação intelectual com valorização ao professor.
Platão representava um modelo aristocrático de poder com pensamento utópico. Propôs a Sofocracia em que o Estado poderia ser governado pelos filósofos tentando assim dominar a alma inferior se contrapondo as diversas tendências do seu tempo.
Isócrates que criticava os pensamentos de Platão por achá-los elitista e restrito ao público centrou sua atenção à linguagem descobrindo novas formas de aprendizagem do discurso.
Para Aristóteles que desenvolveu o método lógico de ensinar, a educação tem a finalidade de alcançar a plenitude e a realização pessoal.
Surgem as escolas filosóficas como o Estoicismo e o Epicurismo.
O Estoicismo representado por Zeno de Citio em que o ser humano deveria fugir de qualquer forma de prazer se contrapondo ao Epicurismo, representado por Epicuro em que o papel da razão teria destaque assim como a busca pela felicidade. As duas tendências marcaram o pensamento filosófico por predominar a religião oriental e cristã.
No capítulo 4 a autora dá ênfase a cultura grego-romana e sua real contribuição aos aspectos da educação e da pedagogia.
A história dos Romanos, que antes, viviam em regime de comunidade primitiva, com culto aos antepassados e autoridade máxima do pater-famílias, ocupava as Colinas do Lácio sendo neste local fundada a cidade de Roma propriamente dita. Surge a propriedade privada da terra e a divisão de duas classes sociais: os Patrícios e os Plebeus.
No período Republicano Romano nasce o cargo político e tudo o que esse sistema representa: enriquecimento dos patrícios e alguns plebeus como comerciantes e a intensificação das lutas pela igualdade de direitos políticos e civis, ficando os outros plebeus as margens do processo político e econômico.
Outro fator importante e de destaque é o crescimento da escravidão, o nascimento de fortunas e a expansão romana.
Quanto à Grécia, encontrava-se no período helenístico, com influências estrangeiras principalmente do Egito e da índia, com costumes luxuosos e governos personalistas.
No Império, ressalva para o sec. De Augusto, conhecido pelo grande desenvolvimento cultural e urbano, com grandes obras e expansão comercial em Roma.
Aranha divide o 4ª capítulo em Educação e Pedagogia. Deixando claro que uma não se separa da outra. Apenas a título de entendimento em relação ao contexto a ser analisado.
Em Educação conceitua a palavra “humanista” designando uma cultura universal, cosmopolita, com tendência de caracterizar o ser humano em seu tempo e lugar. Tornando o indivíduo moralístico, político, e literário.
Aranha divide a educação em 3 aspectos: heróico-patricia, cosmopolita e Império.
Na educação heróico-patrícia valorizava a cultura dos seus ancestrais, da nobreza de sangue. Nesta, aos 7 anos as mulheres permaneciam aos cuidados da mãe e os meninos aprendiam com os pais o patriotismo, a consciência histórica, cultivo da terra, alfabetização, cálculo e o serviço militar. Aos 15 anos praticavam o Civismo e aos 16 eram encaminhados ao serviço militar ou político.
Na educação Cosmopolita, época da República, nasce a escola do LUDI MAGISTER (jogo, divertimento) com professores mal pagos, demora no “ler e escrever” com estruturas péssimas. Com a expansão do comércio professores aprendem duas línguas e ensinam aos Romanos. Assim jovens dos 12 aos 16 anos conhecem a cultura Grega ampliando seus conhecimentos em várias áreas como astronomia, geometria entre outras.
Na educação do Império não houve grandes mudanças, apenas destaque para a entrada do Estado que assume a educação em diversas esferas, criando mais escolas e instituindo um valor a ser pago ao professor.
No aspecto Pedagogia temos algumas ressalvas da Grega e da Romana.
A pedagogia Grega apresenta duas vertentes: uma visão Filosófica sistematizada de Platão e a escola Isócrates. Essas duas exigiam a dedicação de seus alunos nas questões filosóficas no sentido mais amplo, como a Metafísica (causas fundamentais do ser).
A pedagogia Romana, não destacou as reflexões filosóficas, preferindo os assuntos éticos e morais, voltados para uma postura mais pragmática, do cotidiano, para uma ação política.
Aranha destaca os principais representantes e contribuições na área da educação e da pedagogia.
CONSIDERAÇÕES

 Aranha conclui traçando o processo histórico observando que a educação nos tempos remotos era voltada exclusivamente para as ações militares, com exclusão de classes sem a preocupação para o profissional.
Traça todo o processo histórico do período desde os tempos heróicos até o helenismo com uma educação voltada para a área militar do guerreiro e chega ao cidadão polis que passa a freqüentar os ginásios até chegar aos assuntos da literatura e retórica.
A concepção do corpo é transformada em obstáculo para a vida espiritual. Destaque aos gregos que valorizavam a formação profissional e o trabalho manual além da técnica associada a atividade servil.
Importante  ressaltar  que ao buscarmos elementos para compreender as questões educacionais percebemos o quanto as relações econômicas, sociais e políticas são indissolúveis. O poder, a exclusão social e de classes além do método tradicional ainda hoje perpetua nas diversas sociedades. A não valorização pelo professor  que continua com baixos salários e condições mínimas para o compartilhar conhecimentos. A formação dos alunos para a busca da felicidade e realização pessoal ainda está para acontecer. E a interação professor e aluno também se distanciam.
Aranha com uma linguagem de fácil compreensão nos mostra nos três primeiros capítulos que os conflitos educacionais sugerem sempre mudanças. E sem dúvidas alguma são necessários políticas públicas para que a exclusão, o acesso e permanência dos alunos na escola ocorram de fato.
Já no 4ª capítulo percebe-se que a educação pouco se voltava para o preparo intelectual e mais para a formação moral, baseada na vivência cotidiana e na imitação de modelos representados não só pelo pai, mas também pelos antepassados. Predominava uma educação aristocrática por ser privilégio da elite, excluindo novamente o trabalho manual.
Assim comparando aos dias atuais, temos ainda uma educação elitista com o preparo exclusivo para o Estado e não para a vida.
Aranha destaca os principais representantes e contribuições na área da educação e da pedagogia.

QUADRO COMPARATIVO DOS PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA PEDAGOGIA ENTRE OS ROMANOS
PENSADOR
DATA
CONTRIBUIÇÃO
CATÃO
234-149 A.C
Retorno à cultura Romana
VARRÃO
116-27 A.C
Orientação aos jovens pela virtude, enciclopédia gramatical, sátiras.
CÍCERO
106-43 A.C
Idéias compostas pelo platonismo, epicurismo e estoismo. Ampliou o vocabulário latino, valorizou o discurso, a argumentação, desenvolvimento das habilidades literárias, valorização da persuasão...
SÊNECA
4 A.C-65
Filosofia como função de ensinar a vida humana verdadeira. Educação prática e com exemplos. O domínio dos apetites pessoais. Formação moral. A psicologia como instrumento para a preservação da individualidade.
PLUTARCO
45-C.125
Importância da música e da beleza e formação do caráter. Escreveu “Vidas paralelas” destacando os valores gregos e romanos.
QUINTILIANO
C.35-C.95
Destaque aos aspectos técnicos da educação, formação do orador, fases de aprendizado das crianças, ensino simultâneo da leitura e escrita, alternarem trabalho e recreação, importância da aprendizagem em grupo, exercícios físicos, clareza e correção gramatical, valorização pelos clássicos. Destaca os aspectos físicos, psicológicos e morais.


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